Aqui que ninguém nos ouve...
Domingo, 17 de Outubro de 2004
Guerra Junqueiro

Acabei agora mesmo de receber, por e-mail, um excerto retirado do livro
/Pátria/, de Guerra Junqueiro (1850-1923), retirado de um blog qualquer. Julgo oportuno divulgar este texto pela sua
actualidade. Depois de o lerem, dir-me-ão se tenho ou não razão:


«Um /*povo*/ imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misérias, /*sem uma rebelião*/, um mostrar de
dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de
sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando
nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu
adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua
inconsciência como que um lampejo misterioso da /*alma nacional*/, -
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)


Uma /*burguesia*/, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter,
havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida
pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda
a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde
provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)


Um /*poder legislativo*/, esfregão de cozinha do executivo; este criado
de quarto do moderador; e estes, finalmente, tornado absoluto pela
abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro
que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.


A /*justiça*/ ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de
fazer dela saca-rolhas;


/*Dois*/ partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e
pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, /*iguais um ao
outro*/ como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo,
apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem
todos duma vez na mesma sala de jantar (...)»




publicado por ANTRES às 14:38
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